
Foi dormir de luto e amanheceu de luto, por que ontem o que ninguém esperava aconteceu, eu não esperava que acontecesse, ninguém esperava, mas aconteceu. Os alemães, lembrando os soldados da (censurado pelo próprio autor) de outrora, foram mortíferos, foram de uma eficácia letal. Ontem os jogadores alemães destruíram sem piedade os sonhos de um pequeno país outrora imperial. Esse povo que por vezes é carrancudo, amargo, triste, áspero e tem consciência disso, e por isso deposita, até mais que outros países, no futebol a esperança do reencontro com suas glorias passadas e do reencontro com sua própria alegria.
Os “soldados” alemães ontem acabaram mais uma vez com este sonho, como fizeram em 2006 quando derrotaram Portugal na disputa pelo terceiro lugar da Copa do Mundo, e como já tinham feito este ano também desclassificando o FC Porto nas quartas de final da Champions League, com a vitória do “desconhecido” FC Schalke 04, cujo capitão e melhor jogador é um tal de Bordon que outrora era zagueiro do SPFC. Destruíram nosso sonho ontem, os de um povo e os meus também, que depois de tanto tempo aqui também já torço pela sorte deste país, e ontem tive consciência de que a sorte deste, atualmente, passa pelo seu sucesso no futebol. Torço ainda mais por que o comandante destes heróis do mar, que ontem foram derrotados bravamente, era um estrangeiro, era um brasileiro e isso é muito importante para os outros brasileiros que aqui vivem.
O silêncio que vi ontem aqui parecia mais forte e mais alto do que o silêncio que vivenciei na final de 1998, a tristeza no rosto das pessoas, todas com suas camisas grená, era maior do que a tristeza que vejo no rosto deles diariamente. A incredulidade com a seqüência de gols germânicos, com o discurso de despedida de Felipão, e a incredulidade de ver o melhor jogador europeu da atualidade não conseguir fazer mais, não conseguir vencer a defesa germânica era assustadora. Os rostos dos portugueses ontem demonstravam a derrota. Derrota para a qual ninguém estava preparado. E ninguém acreditava que pudesse acontecer, mas ontem aconteceu. E admito que, às vezes, é por isso que eu adoro tanto o futebol. Mesmo que ontem eu o tenha odiado.